quarta-feira, 9 de março de 2011

APRESENTAÇÃO

Se há um gênero que pode ser associado às histórias em quadrinhos brasileiras, este gênero, com certeza, é o terror. Tal vocação não surgiu por acaso. A onda conservadora que varreu os Estados Unidos na década de 1950, arrastada pelo senador Joseph McCarthy na esteira da guerra fria, respingou nos assustadores quadrinhos que eram então publicados por ali – e republicados no resto do mundo. Absurdamente responsabilizadas pela delinquência juvenil norte-americana, as HQs de terror foram literalmente queimadas em praça pública e o gênero virou fumaça como um vampiro diante da cruz.

Ruim para eles, bom para nós. Sem material gringo para traduzir, as editoras começaram a contratar quadrinistas brasileiros para atender a demanda que continuava a crescer. Se no princípio os quadrinhos de terror feitos no Brasil emulavam sua matriz anglo-saxã, logo eles foram desenvolvendo características tipicamente tupiniquins, como o uso de lendas populares e picantes pitadas de erotismo. Nascia então a HQ brasileira de terror, única, ímpar em relação às suas congêneres mundo afora.

Durante mais de três décadas, os leitores refestelaram-se com banhos de sangue, cangaceiros amaldiçoados, lobisomens de vilarejo, macumbeiros barra pesada e vampiras seminuas. Na criação, uma horda de gênios: Flavio Colin, Jayme Cortez, Nico Rosso, Lyrio Aragão, Julio Shimamoto... Mestres da narrativa quadrinística, dotados de traços transbordantes de originalidade e brasilidade. Não deixa de ser melancólico perceber que hoje, grande parte do público leitor de HQs praticamente desconhece os heróis deste gênero, um dia tão popular, que teve seus estertores no final dos anos 1980. As sucessivas crises econômicas e a estagnação editorial conduziram artistas de primeiríssima grandeza a um indesejável, injusto e constrangedor ostracismo.

A ideia de transformar clássicos das HQs de terror brasileiras em desenhos animados é um sonho antigo. A riqueza de traços e visões, bem como a irrefreável imaginação de nossos autores, oferecem um infinito manancial de possibilidades cinematográficas. A questão de por onde começar foi facilmente solucionada: Julio Shimamoto, o mestre Shima, foi uma escolha natural pela inquietude e diversidade de sua obra. E também por ser um dos poucos quadrinistas ainda vivos da primeira geração do terror brazuca.

Ao longo de uma carreira que já ultrapassa 50 anos, Shima se notabilizou pelo desenho dinâmico e mutante. De tempos em tempos, o samurai dos quadrinhos se reinventa lançando mão de novas e improváveis técnicas criadas por ele mesmo, tais como usar bexigas para distorcer imagens, ou desenhar por meio de raspagens em superfícies cerâmicas previamente pintadas. Se no Brasil existe o dito Cinema de Invenção, o que Julio Shimamoto faz pode e deve ser considerado o legítimo Quadrinho de Invenção.

O Ogro é uma HQ publicada em 1984 na edição 27 da saudosa revista Calafrio. Nela, desenhando com tinta branca sobre cartolina preta, Shima antecipou em uma década o que Frank Miller viria a fazer em Sin City. A atmosfera densa e a abordagem expressionista impostas pela arte de Shimamoto transformaram o roteiro de Antônio Rodrigues – que lidava com clichês de um terror gótico – em uma pequena obra-prima. A escolha da HQ a ser adaptada foi feita pelo próprio Shima, por inaugurar uma nova etapa em seu uso gráfico do claro-escuro.

Desenvolvidos roteiro e storyboard de O Ogro, deu-se início à batalha para a realização do filme. Depois de diversas negativas, o projeto venceu o Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo de Curta Metragem do Estado de Goiás. Um gigantesco desafio norteou toda a produção de O Ogro: o traço moderno, arrojado e indócil do mestre Julio Shimamoto deveria estar presente em cada frame na tela. Imitar o inimitável não foi tarefa das mais fáceis. Mas residia aí toda a força e sentido da obra.

O Ogro não é um resgate de Julio Shimamoto. Ele não precisa. Aos 72 anos, em plena atividade, Shima está muito acima disso. O Ogro é, de fato, uma homenagem apaixonada a um artista que jamais se acomodou e a um gênero que ele ajudou a fundar. Uma homenagem ao próprio quadrinho brasileiro. Que venham as próximas.



INTRODUCTION

If there's one genre that is often associated to Brazilian comics, it undoubtedly is horror. And it’s no coincidence. The conservative wave that swept through the United States in the 1950s, led by Senator Joseph McCarthy in the wake of the Cold War, ended up tarnishing the terrifying comic books that were published back then – and republished for the world. A scapegoat for juvenile delinquency amongst American youths, horror comics were literally burned at the stake and the genre disappeared like a vampire before the cross.

Great for us, not so great for them. With absolutely no gringo material to translate, comic book publishers began to hire Brazilians so to meet their ever-growing demand. At first, the horror comics made ​in Brazil emulated their Anglo-Saxon parents, however, soon they began to show typically tupiniquim characteristics, such as the use of folktales andhints of spicy eroticism. And thus was born the Brazilian horror comic, unique, and unparallel to its counterparts all over the world.

For over three decades, readers have reveled in bloodshed, cursed bandits, village werewolves, hardcore voodoo and naked vampires. A horde of geniuses emerged: Flavio Colin, Jaime Cortez, Nico Rosso, Lyrio Aragon, Julio Shimamoto... Masters of the comic-book narrative, endowed with brimming traits such as originality and Brazilianness. It is saddening to realize that the heroes of this genre that was so popular in the past and which dwindled in the late 1980s, are virtually unknown today. Successive economic crisis and editorial stagnation led artists of the highest magnitude to undesirable, unfair and embarrassing ostracism.

The idea of turning classic Brazilian horror comics into animated cartoonscis an old dream. The wealth of traces and frames, as well as the irrepressiblecimagination of our authors, offer an infinite wealth of cinematic possibilities. Where to start was a no-brainer: Julio Shimamoto, Master Shima, a natural choice because of his restlessness and of thediversity of his work. He is also one of few living cartoonists from the first generation Brazilian terror comics.

Throughout his career of more than 50 years, Shima set himself apart through his dynamic and changing drawings. From time to time, the samurai cartoonist reinvents his work by resorting to new and unlikely techniques created by him, such as using balloons to distort images, or scraping drawings on previously painted ceramic surfaces. If you consider that Brazil produces the so-called Innovation Cinema, Julio Shimamoto would and should be considered the original Innovation Comic.

The Ogre is a comic book published in 1984 in the 27th edition of the nostalgic Calafrio. Drawn with white ink on Black cardstock, Shima was the first to do what Frank Miller proposed a decade later in Sin City. The dense atmosphere and expressionist approach imposed by Shimamoto´s art transformed Antônio Rodrigues screenplay, which dealt with the clichés of gothic terror, into a masterpiece. The comic book choice that would be adapted was selected by Shima himself, and launched a new trend the use of graphics on light-dark.

Once the script and storyboard had been developed, began the battle to make the film The Ogre. After a couple of setbacks, the project won the State Short Film and Video Award for the state of Goiás. A huge challenge was posed to the entire production of The Ogre: Julio Shimamoto´s modern bold and wayward elements should be present in every frame. Mimicking the unmimicable was not an easy task. But therein lay all the strength and meaning behind the work.
The Ogre is not a comeback for Julio Shimamoto. He does not need one. At 72, in full swing, Shima is far above comebacks. The Ogre is, in fact, a passionate tribute to an artist who never settled and the genre that he helped to create. A tribute to the Brazilian comic book itself. Bring on the next.


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