domingo, 30 de outubro de 2011

ENTREVISTA CONCECIDA AO JORNAL O POPULAR


Hoje, dia 30 de outubro, o Jornal O Popular (o maior do Estado de Goiás) publicou uma reportagem sobre o novo cinema goiano. Essas são as nossas respostas, na íntegra e sem verniz!

Foto de Bruno Lôbo





















1. Como começou seu interesse pelo cinema em geral? Eram cinéfilos?

Márcia Deretti:
Estudei jornalismo em uma época que as graduações em audiovisual no Brasil eram raríssimas e a faculdade de comunicação social acabava abarcando várias disciplinas da área. Na universidade, entrei em contato com alguns professores que, além do repertório acadêmico, tinham uma vivência prática admirável no audiovisual. Vários deles são referência para mim até hoje, como o Carlos Gerbase e o Glênio Póvoas, e foram eles que me deram um norte sobre aquilo que eu desejava fazer na vida. Comecei a trabalhar como assistente de produção na Otto Desenhos Animados, uma das principais produtoras de cinema de animação autoral do País, e lá me apaixonei por este universo.

Márcio Júnior:
Sempre fui apaixonado pela imagem. Quadrinhos, artes plásticas e cinema sempre ocuparam lugar de destaque nas minhas preferências estéticas. Com o tempo, percebi um gosto particular por aquilo que se situava à margem. Daí o interesse em animação, horror e outras bizarrices. A TRASH, festival de cinema que eu criei ainda em 1999 tinha a ver com isso.

2. Como começou a fazer cinema?

Márcia Deretti:
Trabalhei cinco anos na Otto Desenhos Animados e lá pude exercer várias funções. Aprendi muito sobre produção audiovisual, mas chegou um momento que senti necessidade de realizar meus próprios projetos. Isso de fato aconteceu quando conheci o Márcio Jr., que já estava mergulhado até o pescoço na produção cultural, e me mudei para Goiânia. Em 2007, unimos nossas bagagens, nossos interesses, nossas paixões em comum e começamos a esboçar as metas para as nossas vidas: trabalharmos juntos em coisas que realmente eram relevantes pra gente. O Márcio já fazia a TRASH, evento que lida especificamente com produções de baixo orçamento. Começamos também a organizar em Goiânia, ao lado do produtor Coelho Nunes, o Dia Internacional da Animação. Além disso, formamos duas turmas de alunos na Escola Goiana de Desenho Animado, projeto de formação que visa qualificar profissionais para o mercado de animação. Trabalhei em praticamente todos os festivais de cinema goianos, sempre procurando defender um espaço para a animação, pois acreditamos que não basta apenas concretizarmos nossos filmes, é preciso investir no nosso mercado, nos espaços e nas platéias. A produção de um filme não termina com a primeira projeção na tela grande. Existe um trabalho árduo de pós-produção para que ele alcance o seu público, principalmente falando sobre o formato curta-metragem, cujas exibições estão restritas aos eventos e festivais.

3. Quando percebeu que seu trabalho estava sendo reconhecido?

Márcia Deretti:
Acho que é um pouco cedo para falarmos sobre reconhecimento, mas, se existe algum, temos certeza de que é reflexo de muito trabalho e esforço. Estamos felizes com a repercussão do O OGRO, nosso primeiro trabalho de direção. Em menos de um ano de carreira o curta já foi exibido em mais de 20 eventos e ganhou sete prêmios, um deles internacional. Trabalhamos duro para colocarmos O OGRO no máximo de telas possíveis. Não faria o menor sentido enfrentarmos tantos entraves para a realização de uma animação autoral, baseada numa HQ brasileira de terror (um trabalho, enfim, com características pouco convencionais) e depois guardá-la em alguma gaveta. A tarefa de distribuição de curtas requer um grande empenho e investimento, algo que normalmente não é previsto nas planilhas orçamentárias dos editais de produção. Não basta pensar apenas no lado artístico, tem que ter visão de produção também. São dezenas de envelopes pelo correio por mês, investimento em material gráfico, assessoria de imprensa, tradução para outras línguas, etc. O OGRO é um trabalho que tem nos ensinado bastante e queremos aplicar este aprendizado na nossa próxima adaptação: O RETRATO DO MAL, uma antológica HQ do veterano Jayme Cortez.

4. Como é o seu modo de trabalho?

Márcio Jr:
Nosso modo de trabalho é encontrar um projeto em que acreditamos e nos dedicarmos a ele com a obstinação de uma mula

5. Poderia definir o seu estilo? Se é que acredita nisso?

Márcio Jr:
Seria muita presunção falar de estilo a essa altura do campeonato. Estilo é algo que vem com o tempo e com a experiência. Ainda temos muita coisa pra fazer antes do nosso estilo vir à tona e nos sentirmos à vontade para defini-lo. Mas temos uma visão bem clara do que queremos produzir: projetos autorais, marginais, que nos propiciem prazer estético. Antes de mais nada, queremos correr riscos. O que já está dado, no âmbito da indústria, nem de longe nos interessa.
  
6. Porque o cinema goiano só agora está começando efetivamente a ser exibido com uma maior frequência em outras cidades e centros? Aliás, até que ponto é importante o reconhecimento de outros centros para a nossa produção? 

Márcio Júnior:
Imagino que seja em virtude da qualidade cada vez maior dos filmes goianos. É preciso ter a humildade e o pé no chão para entender que o nosso audiovisual está ainda num estágio embrionário, mas efervescente. É possível ver o talento dessa nova geração dando seus primeiros frutos e, principalmente, somando-se à experiência de nossos pioneiros. Mas qualidade não cai do céu. È preciso formação e investimento na área. O OGRO é um exemplo disso. Ações anteriores como a Escola Goiana de Desenho Animado e a existência do Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo de Curta Metragem foram fundamentais para atingirmos o resultado obtido. E confesso que não estou muito preocupado com o reconhecimento dos outros centros. Me interessa mais o diálogo entre as produções de diferentes regiões. Com incentivos e investimentos adequados, o nível de nossa produção sobe exponencialmente e o reconhecimento se dá de forma natural.

Márcia Deretti:
É importante lembrar que este bom momento coincide com a formatura da primeira turma do curso de audiovisual da UEG. Isto aponta para a necessidade de formação teórica dos profissionais e demonstra o quanto o cenário ganha quando existe investimento em educação. Um grupo de recém-formados, por exemplo, montou a Panaceia Filmes e lançou JULIE, AGOSTO, SETEMBRO, que já percorreu importantes festivais brasileiros. Interagir com outros centros é algo fundamental, pois permite a troca de experiências, o intercambio de ideias e o acesso a uma pluralidade de visões. Por isso a participação em festivais de cinema é importantíssima para os autores dos filmes. Em nosso caso, na animação, trilhamos a picada aberta por veteranos como Dustan Owen, Moisés e Paulo Caetano. Temos também a Mandra Filmes, que hoje é uma sólida produtora goiana, se mantendo com desenho animado num fluxo contínuo de produção, algo raro em qualquer região do país. Enfim, o panorama é pra lá de promissor. Principalmente se o poder público tiver a coragem e inteligência de cumprir o seu papel.

Nenhum comentário:

Postar um comentário